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Porque Pema Chodron é Fodona, parte I

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Trechos de uma entrevista concedida por Pema Chodron, a fodona, ao site Beliefnet:

Freud observou que nós somos terrivelmente duros com nós mesmos, que nós julgamos a nós mesmos e aos outros todo o tempo. Você pensa que essa espécie de julgamento é inerente à natureza humana, ou é algo adquirido?

Muitos anos atrás o Dalai Lama estava em uma conferência com instrutores budistas ocidentais. Em um determinado momento, a professora de meditação Sharon Salzberg levantou o tema da auto-recriminação. Ela disse que esse era um problema importante a ser abordado por qualquer instrutor de budismo no Ocidente. O Dalai Lama não soube sobre o que ela estava falando. Então ele caminhou pela sala e perguntou a outros instrutores a respeito, e cada um deles concordou com Sharon. A autor-recriminação era uma coisa que Dalai Lama literalmente não compreendia.

A primeira nobre verdade de Buda é que as pessoas experimentam ‘dukka’, um sentimento de insatisfação, um sentimento de que algo está errado. Nós sentimos essa insatisfação porque nós não estamos sintonizados com nossa verdadeira natureza, nossa básica benevolência. E nós não ficaremos fundamentalmente, espiritualmente satisfeitos até que nós entremos em sintonia. Dzigar Kongtrul, meu instrutor pelos últimos cinco anos, disse que apenas no Ocidente essa insatisfação é articulada como “Algo está errado comigo”. Parece que pensar em si mesmo como cheio de falhas é mais um fenômeno ocidental do que universal. E se você está instruindo estudantes ocidentais, isso tem que ser abordado, pois até a auto-recriminação ser ao menos parcialmente superada, as pessoas não podem experimentar a verdade absoluta.

Porque não?

Porque elas irão interpretar mal a inexistência de qualquer apoio ou base que caracteriza a verdade absoluta, as pessoas irão pensar que há algo de errado com elas.

Essa autocrítica parece difícil de evitar. Você não acorda simplesmente um dia e diz para si “Eu vou parar de ser autocrítico”. Se você deixa cair um baleiro de vidro em uma loja de doces, e ele quebra, você automaticamente pensa “Oh, que idiota eu sou”.

Eu acho que é muito mais profundo do que só pensar em si mesmo como idiota. Eu tenho minha própria teoria sobre isso, baseada na minha experiência pessoal. Eu estava em uma relação íntima uma vez com alguém que não gostava de mim, e eu não podia escapar da situação. E, pior: essa pessoa era inacessível e não falava sobre o problema. A combinação de sentir-se rejeitada e não ter chance de discutir me fez sentir que havia algo terrivelmente errado comigo, que eu era uma má pessoa.

Eu tentei todas as técnicas de meditação que eu tinha ensinado às pessoas, mas nada me aliviava da dor que eu sentia. Era similar à dor que eu senti quando meu marido me abandonou. Então eu fui para a sala de meditação onde eu estava na época praticando e só fiquei lá, sentada. Eu não fiz meditação alguma. Eu só sentei lá no meio desta dor, coluna reta, durante toda a noite.

E eu tive um ‘insight’. A primeira coisa foi que eu me sentia fisicamente como uma criança, tão pequena que se eu sentasse em uma cadeira meus pés não tocariam o chão. E então houve o reconhecimento de que eu precisava relaxar e abraçar a dor. Até então, eu tinha evitado ir para este lugar onde eu me sentia má ou inaceitável ou indigna de amor. Nenhuma linguagem poderia expressar o quão horrível esse lugar era. Mas eu só comecei a respirar dentro dele. Eu percebi que esse era um momento crucial. De alguma forma, mesmo com meu divórcio, eu nunca havia chegado ao limite. E naquela madrugada, eu cheguei. Eu estava segundos distantes de experimentar o sentimento de morte.

O sentimento de morte?

O mais profundo nível de sofrimento que todos nós sentimos, e que os ocidentais confundem como sendo algo de errado com sua própria natureza. Mas eu estava relaxada e entregue a esse sentimento, e ele passou através de mim. E eu não morri. Esse sentimentou passou por mim de imediato. Foi um grande momento para mim. Eu percebi que a resistência à idéia de que eu era indigna de amor apenas fazia a dor piorar.

Então você usou sua própria vida como base para sua prática espiritual.

Não há nada a não ser sua própria vida que pode ser usado como base para sua prática espiritual. Prática espiritual é sua vida, vinte e quatro horas por dia. Não há tempo de folga. Nós fazemos a prática de meditação formal porque isso nos traz mais próximos daqueles estados de mente que experimentamos em nossas vidas nas épocas de crise. Por exemplo, quando eu sentei lá a noite toda, eu não estava fugindo do que estava acontecendo ao meu corpo e mente. Não havia distração alguma, nem mesmo para urinar ou escovar os dentes. Era só uma experiência momento-por-momento do presente.

Written by Victor Lisboa

2323/0909/pmpmpmpm at 12:48 pm

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